Quinta-feira, 6 de julho de 1944

Meu sangue esfria quando Peter fala em se tornar criminoso ou especulador; claro que é brincadeira, mas ainda tenho a sensação de que ele tem medo de suas próprias fraquezas. Margot e Peter vivem me dizendo: “Se eu tivesse sua coragem e sua força, se eu tivesse seu empenho e sua energia inabalável, poderia…!”

Será realmente uma característica admirável não me deixar ser influenciada pelos outros? Será que estou certa em seguir minha consciência?

Para ser franca, não consigo imaginar como alguém poderia dizer “Eu sou fraco” e continuar assim. Se você sabe isso ao seu respeito, por que não luta contra, por que não desenvolve o caráter? A resposta deles sempre foi: “Porque é muito mais fácil não fazer isso!” Essa resposta me deixa desestimulada. Fácil? Quer dizer que também é fácil uma vida de mentiras e preguiça? Ah, não, não pode ser verdade. Não é verdade que as pessoas se sintam tentadas pela facilidade… e pelo dinheiro. Pensei muito em qual deveria ser minha resposta , em como deveria fazer para Peter acreditar em si mesmo e, acima de tudo, mudar para melhor. Não sei se estou na trilha certa.

Com frequência imaginei como seria bom se alguém tivesse confiança absoluta em mim. Mas agora que cheguei a esse ponto, percebo como é difícil me colocar no lugar de outra pessoa e conseguir a resposta certa. Sobretudo porque “fácil” e “dinheiro” são conceitos novos e totalmente estranhos para mim. 

Peter está começando a se apoiar em mim e não quero isso, de jeito nenhum. Já é difícil ficar sobre meus pés, mas quando a gente tem que permanecer fiel ao próprio caráter e a própria alma, é ainda mais difícil.

Tenho andado inquieta, passei dias procurando um antídoto eficaz para a terrível palavra “fácil”. Como posso deixar claro para ele que, apesar de parecer maravilhosa, ela irá puxá-lo para as profundezas, para um lugar onde ele não encontrará mais amigos, apoio ou beleza tão no fundo que jamais poderá voltar à superfície?

Estamos todos vivos, mas não sabemos porquê nem pra que; estamos procurando a felicidade; levamos vidas diferentes e ao mesmo tempo iguais. Nós três fomos criados por boas famílias, temos oportunidade de obter uma formação e de nos transformarmos em alguma coisa boa. Temos muitos motivos para esperar grande felicidade, mas… precisamos merecê-la. E isso é algo que não se pode conseguir pelo caminho fácil. Merecer a felicidade significa fazer o bem e trabalhar, e não especular e ser preguiçoso. A preguiça pode parecer convidativa, mas só o trabalho traz a verdadeira satisfação.

Não consigo entender gente que não gosta de trabalhar, mas esse também não é o problema de Peter. Ele apenas não tem um objetivo, e se acha muito burro e inferior para alcançar alguma coisa. Coitado, nunca soube como é fazer alguém feliz, e tenho medo de não conseguir lhe ensinar. Ele não é religioso, zomba de Jesus Cristo e pronuncia o nome do Senhor em vão, e apesar de eu também não ser ortodoxa, fico magoada cada vez que o vejo tão sozinho, tão cheio de desprezo e tão infeliz.

Quem é religioso deve se alegrar, porque nem todo mundo é abençoado com a capacidade de acreditar numa ordem superior. Você não precisa viver no medo da punição eterna; os conceitos de céu, inferno e purgatório são dificeis pra muita gente, mas a própria religião, qualquer uma, mantém a pessoa no caminho certo. Não o temor a Deus, mas a manutenção do nosso sentimento de honra e de obedecer a propria consciencia. As pessoas seriam muito mais nobres e melhores se, no fim de cada dia, pudessem rever o próprio comportamento e pesar o que fizeram de bom e mau. Automaticamente tentariam melhorar a cada manhã e, depois de algum tempo, com certeza realizariam muita coisa. Todo mundo poderia seguir essa receita: não custa nada e é utilíssima. Os que não sabem teráo que descobrir por experiência própria que "uma consciência tranquila dá força as pessoas"!

Sua Anne M. Frank